Deriva de código

Code Drift: Essays in Critical Digital Studies

Deriva de código

de Arthur e Marilouise Kroker

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves. Original text in English at http://ctheory.net/ctheory_wp/articles.aspx?id=633

Deriva de código

Nem globais nem locais
Hoje somos móveis

Somos código à deriva

Remixamos/mutamos/disseminamos/libertamos

Deriva de código é o atual e futuro
sistema nervoso — a deriva genética
de todos os corpos de dados aumentados.

Somos RA

Somos Carne de Dados

Somos Código à Deriva

Genômica de software

Deriva de Código é uma tentativa de unir os grandes discursos da biologia e da digitalidade, essencialmente considerar as implicações de se mapear a linguagem da genômica em códigos de software. Pretendemos argumentar que os dados ganharam vida na forma de nossa rede estendida de órgãos tecnológicos, que o crescimento da cultura da informação é o mundo real do desenvolvimento evolucionário literalmente, e não metaforicamente. Quando os dados ganham vida, quando os dados se tornam o princípio vital predominante em nós, assim como sua prótese consentida, somos subitamente levados para uma cosmologia digital maior, cujo futuro ainda é incerto. Mas uma coisa sabemos: a cosmologia digital tem suas próprias leis de movimento — deriva de código; sua política se baseia na situação profundamente paradoxal de estarmos presos à mobilidade; o primeiro avistamento do que em breve será sua forma predominante de subjetividade são os corpos de dados aperfeiçoados de realidade aumentada; e a condição humana que ela deixa em seu rastro só pode ser caracterizada como uma que sofre de trauma digital. Não a visão de Toffer do “choque do futuro”, em que uma humanidade atônita é dominada pelo ritmo acelerado da mudança tecnológica, mas algo muito mais elementar, qual seja, que o mesmo fato incrível que Nietzsche certa vez descreveu como a morte de deus e o início de algo fundamentalmente novo está sobre nós novamente, exceto que desta vez não é tanto a morte de deus, mas o súbito eclipse do sucessor de deus diante desse novo fluxo de acontecimentos da deriva de código, mobilidade amarrada, carne de dados aperfeiçoados e trauma digital. Desse modo, o prolegômeno de uma nova cosmologia digital.

O destino espectral da tecnologia

“Em biologia, deriva genética se refere às flutuações aleatórias de frequências genéticas devido a erros de amostragem.” [1]

Nem globais nem locais, hoje somos móveis — somos deriva de código. Assim como a deriva genética, que produz em seu rastro correntes imprevisíveis de variações genéticas, a deriva de código ocorre por acaso. A deriva de código não pode ser programada com antecedência, mas ocorre através de variações casuais através de usos inesperados, aplicações criativas, uma flutuação em nossa percepção que produz complexas transformações tecnológicas. Flutuações aleatórias que se acumulam com o tempo, resultando em modificações complexas mas sutis na formação genética de uma população: um futuro indeterminado de fluxo, caos, intermediações, intersecções, remixagens.

A deriva de código é o destino espectral da história da tecnologia. Não há uma mensagem necessária, um significado final, um futuro definido, um objetivo firme: apenas uma cultura digital à deriva em fluxos complexos de tecnologias de redes sociais, filtrada aqui e ali com súbitas alterações nas frequências de código, movendo-se à velocidade das flutuações aleatórias, sempre buscando fazer da questão da identidade um erro de amostragem, para conectar-se com os fluxos de energia interrompidos de rupturas, conjurações, ininteligibilidade, bifurcações. A visão de Paul Virilio da duplicação da realidade, de que sempre agimos em dois mundos paralelos ao mesmo tempo, não é necessariamente uma força negativa, mas pode, ao contrário, abrir possibilidades criativas. Enquanto Virilio poderia reduzir as redes sociais, Second Life (SL), YouTube, Twitter e a Web a instâncias de deslocalização, detectamos a presença de derivadores de código criativos: mensagens de texto, mobilização, resistência, imaginação, até praticar a dieta das 100 Milhas a caminho de novas variações complexas de destino tecnológico. Enquanto a tecnologia tem a ilusão do controle — considere como as tecnologias de redes sociais sempre se esforçam para adquirir um rosto na linguagem possessiva do “eu” e “você” — Facebook, iChat, iPhone, YouTube –, a realidade de dados que persiste é a deriva de código. Codificados pela tecnologia, todo mundo hoje é um derivador de código, afetado pela tecnologia e remixando-a de volta. Considere esta descrição de uma inovação tecnológica mais recente — o som hipersônico, o som unidirecional:

Ondas de som hipersônico se projetam em um tom indetectável pelo ouvido humano. As ondas se combinam até chocar-se com um objeto como o corpo de uma pessoa. Então as ondas desaceleram, se misturam e recriam a transmissão original de áudio. Se a pessoa se afastar das ondas, elas não serão mais obstruídas e se tornarão inaudíveis.[2]

Quando o som hipersônico se torna som leve — passa a ser o “ouvido” da tecnologia. Produz uma nova forma de silêncio que chamamos de silêncio hipersônico — uma tecnologia sutil que sussurra no nosso ouvido. É quando o silêncio não é silencioso. Um futuro de ouvidos enxertados às sutilezas da tecnologia subliminar. O som hipersônico é usado como ferramenta de marketing no Japão há vários anos, e recentemente foi empregado pela rede de televisão A&E em uma rua movimentada no centro de Manhattan para promover seu programa “Paranormal State” [Estado Paranormal]. Os pedestres que passavam perto de um outdoor ouviam vozes sussurrando: “Quem está aí? O que é isso? Não é sua imaginação”. Quando os nova-iorquinos ouviram falar nessa novidade na paisagem de mídia, imediatamente correram ao local para experimentar a nova tecnologia em primeira mão.

Certamente a audição just-in-time, com sua separação radical dos sentidos digitais, envolve a separação entre som e ruído. Mas talvez o que esteja realmente presente, e talvez seja mais sedutor, nessa inovação em novas mídias é um vestígio elementar de deriva de código. Nossa tese é que todas as novas mídias são estruturadas por derivação de código. McLuhan estava absolutamente certo. A deriva de código está diretamente ligada às leis das novas mídias. Por exemplo, considere um remix feito por um derivador de código do famoso conceito da tétrade de McLuhan, com suas quatro leis de desenvolvimento da mídia, pelo qual, para McLuhan, toda nova mídia simultaneamente torna obsoleto um meio mais antigo, representa algo fundamentalmente novo, recupera a forma superada de uma mídia mais antiga, como uma fantasia cultural para tornar mais aceitável o que é realmente novo, e quando colocada sob extrema pressão se reverte a seu oposto. Em outras palavras, escritas muito antes de seu tempo digital, a tétrade de McLuhan é um manifesto para os derivadores de código. Derivações de obsolescência — o que fica para trás com o som hipersônico é o velho ouvido de carne especializado em ondas sonoras sônicas, aberto a todo ruído, geograficamente fixado às laterais do crânio, incapaz de dividir o sensório nervoso ao diferenciar som de ruído; derivas do novo — este é o ouvido customizado, o ouvido hipersônico, que é perfeito para a era de hiperindividualismo em um momento de redes de dados intensificadas. Um som individual para cada ouvido. Em um metrô lotado, o ouvido hipersônico só escuta ondas sonoras em ultra-alta frequência dirigidas para ele. Em uma esquina de rua, ele vive em seu próprio casulo sonoro direcional. “Quem está aí? O que é isso? Não é sua imaginação”; derivações de captação — o que é captado pelo ouvido unidirecional é a tactilidade íntima da nova mídia — um titilar de dados, um zumbido, um soluço dirigido exatamente ao ouvido; e derivações de inversão. Levado ao extremo, o som hipersônico suprime o ruído e amplifica o som. O ouvido hipersônico pressagia um mundo futuro que de repente se torna silencioso, cada pessoa um casulo de ondas sonoras invisíveis, cada qual um ícone de narcisismo digital perfeitamente individualizado, mas não menos prazeroso, cada qual um filme mudo de tecnologia subitamente invisível. Uma tecnologia invisível que só se torna visível quando está em seu ouvido.

A deriva de código não é novidade. A própria humanidade é produto de flutuações evolucionárias aleatórias, sem objetivo certo ou definido, sem uma teleologia orientadora. O erro de amostragem é o alfabeto genético do corpo. Quem não vive para a misteriosa sedução das alterações de frequência inesperadas na vida cotidiana?

Com o movimento quádruplo da história da tecnologia, desde a infraestrutura mecânica ao sensório eletrônico às redes digitais e agora à esfera autocriada da realidade aumentada, a deriva de código é a principal consequência da tecnocultura. Somos todos apanhados em flutuações aleatórias de código devido a erros de amostragem. A indeterminação dos resultados aleatórios e a certeza das funções de probabilidade é o verdadeiro horizonte existencial da subjetividade digital. Na cultura da modernidade, o impulso em direção à racionalidade sempre foi acompanhado pelos vestígios “espectrológicos” [3] de sua própria negação, qual seja, a implosão de todos os sinais referenciais no absurdo. A ansiedade existencial foi a verdadeira “espectrologia” da modernidade. A chegada gradual à consciência de massa do senso de absurdo — o reconhecimento modernista tardio nas esferas de conhecimento, poder, sexo, desejo — da verdade daquilo que sempre foi negado e portanto reconhecido, deu origem instantaneamente em nossa época à morte espetacular — na retórica, pelo menos, senão necessariamente de fato — dos grandes referenciais. Culturalmente, o pós-modernismo nasceu das cinzas do reconhecimento daquilo que antes era negado, ou seja, que razão, verdade, sexo, consciência, poder não têm necessariamente significado, mas são apenas puros simulacros perspectivos — códigos à deriva flutuando como eventos-cenas instáveis em meio a fatos aleatórios e funções de probabilidade, incerteza e significado inscrito. Esse movimento inescapável de casualidade que corre da alvorada da biologia evolucionária ao futuro digital, esse privilegiamento pela deriva de código daquilo que foi anteriormente rejeitado, e portanto nunca realmente confessado, expressa algo essencial para a compreensão de nossa condição contemporânea de dados, especificamente nosso emaranhamento consentido na linguagem da deriva de código. Tendo as contradições como único valor verdadeiro, esses erros aleatórios de amostragem de identidades erradas, corpos não marcados, significados deslocados, desvios de dados não são simplesmente o subproduto necessário de alcançar o equilíbrio estável para sistemas que prosperam no crescimento metastático da vigilância globalizada, máquinas de visão automática, som hipersônico, corpos GPS, mídia móvel e aplicativos criativos. O genoma global de dados é em si mesmo um gerador de temas aleatórios. Ele gera em seu rastro simulacros puramente perspectivos, não menos belos ou sedutores pelo fato de que somente a mais disciplinada violência de hoje pode com sucesso proteger sistemas fechados contra o canto de sereia do absurdo — identidades flutuantes em rede, erros de dados como avanços nervosos para novos “apps incríveis”, o êxtase do corpo de dados plenamente exposto, totalmente circulante, comemorando sua fuga das concepções de privacidade hoje defasadas. A carne de dados quer ser aleatória. Ela deseja flutuar, derivar, circular, bifurcar-se. A carne de dados absorve totalmente a negação modernista básica — o senso de absurdo em todos os grandes referenciais — como sua principal condição de possibilidade. Não necessariamente um sistema fechado nem aberto, a carne digital é um sistema à deriva. Não é tanto que a tecnologia digital recapitule a linguagem da mitologia clássica como a história de uma luta fatal entre sistemas fechados contra abertos — Cila contra Caríbdis –, mas que a tecnocultura contemporânea hoje se aproxima de seu apogeu como um universo à deriva. Hoje somos todos renascidos como derivadores de código viajando para um destino tecnológico ainda desconhecido, um destinamento em algum lugar além da visão utópica da expansão indefinida e o espectro distópico de uma contração violenta, apocalíptica. Mas isto sabemos: com seu sistema nervoso totalmente exposto e assim pirateado pela mídia eletrônica da comunicação, o corpo humano inconscientemente reconhece na linguagem da deriva de código — flutuações, frequências, erros de amostragem, mutações, derivações — algo que havia sido perdido, e nunca lamentado propriamente, qual seja, o sistema nervoso protegido durante milênios pela carapaça externa de pele e crânio, que agora foi reencontrado. Na forma do sistema nervoso digital, a deriva de código é o único e futuro sistema nervoso — a deriva genética — de todos os corpos de dados aumentados da realidade aumentada.

Presos à mobilidade

Mutação Neural — teoria da deriva aleatória da evolução molecular. Uma teoria segundo a qual a maioria das substituições de nucleotídeos ao longo da evolução é resultado da fixação aleatória das mutações neutras ou quase neutras, mais que o resultado da seleção positiva darwiniana.” [4]

Presos à mobilidade? Isso é rotineiro no mundo digital, onde o corpo — suas poses gestuais celulares, sua atenção mais enlevada, sua mais elementar matéria cerebral — está ligado ao som do iPhone, às trocas de palavras-dados pelo Blackberry, à diversão da tela de jogos. Há não muito tempo, acreditava-se que com as comunicações móveis os terminais fixos e as posições corporais estacionárias seriam abandonados para sempre, libertando os sujeitos digitais para os espaços selvagens e nômades da comunicação sem fio. Como que para demonstrar que o vernáculo literário tradicional dos resultados paradoxais e consequências inesperadas não foi eclipsado pela depreciação da comunicação imóvel, os sujeitos digitais hoje são intensamente presos à mobilidade. Esse gesto específico, e definitivamente global, em que os olhos se conectam à telemetria de dados em gestos de checar mensagens — uma imagem, um fluxo de dados na palma de uma mão Blackberry, um app do iPhone — é a mais nova forma de dança da cultura recombinante. Consequentemente, quanto mais móvel a velocidade da comunicação, mais imóvel o sistema dos reflexos humanos. Quanto mais intensa a circulação do meio dominante de troca comunicativa, mais fundida a integração sináptica dos sistemas nervosos humano e digital. Quanto maior a visibilidade da tecnologia comunicativa, mais visível a natureza puramente protética do corpo de dados. Fluxos de dados não incorporados exigem carne de dados plenamente incorporados como condição básica de possibilidade, assim como o espectro puramente ilusório do corpo nômade é a principal justificativa que promove o desaparecimento da carne humana em densas redes de telemetria de dados. Sonhos de incorporação — carne, natureza, cultura, cidades incorporadas — hoje podem experimentar essa dinâmica ressurreição nos primeiros anos do século XXI, exatamente porque a morte da incorporação é a espectrologia do terrorismo do código.

Como todas as práticas de dança, que coreografam os movimentos do corpo através do espaço, e às vezes contra ele, a dança da mobilidade presa é um alterador de tempo. A pose gestual do corpo móvel se assemelha mais ao que Rene Thom, o teórico suíço da teoria do caos, em sua iteração mais anti-romântica, certa vez descreveu como a repetição constante de uma mudança de estado morfológica, o ponto em que os dados se tornam genes, em que o corpo está só aparentemente ligado à mobilidade, mas na verdade funciona como parte do mecanismo neural do genoma digital global. Como todos os indivíduos possuídos — assombrados? — somos afinal aquilo em que mais confiamos, e isso é verdade desde a selvageria do capitalismo primitivo à sedução comunicativa da forma de intercâmbio virtual. Totalmente possuído pela telemetria digital, possibilitado pelo fluxo de dados, visceralmente assombrado pelo espectro da informação, o sujeito digital não conhece destino hoje além da mobilidade presa. A ilusão de mobilidade, a realidade de ser despelado pela tecnologia. A imagem árida de cassinos no final da tarde vem à mente quando multidões solitárias de aposentados jogando em caça-níqueis liberam suas mãos colocando cartões de crédito pendurados do pescoço diretamente nas máquinas para jogar por horas a fio. Talvez o que esteja realmente em jogo não seja a preferência individual pela mobilidade contra as comunicações imóveis, mas o acúmulo de uma deriva de cultura digital em direção a uma certa mutação neural.

Já vivemos a época do genoma digital global. Quando o discurso dos dados com seus códigos, fluxos, redes, bancos de memória, trocas de pacotes e terminais encontra o mundo da genética, algo estranho acontece. Fluxos de informação padronizados sofrem a influência de mutações neurais com sua deriva aleatória de teoria da evolução digital. E por que não? Os geneticistas afirmam que “as mutações neurais podem se disseminar em uma população meramente por acaso, porque somente um número relativamente pequeno de gametas é ‘amostrado’ do vasto suprimento produzido em cada geração, e portanto apresentado aos indivíduos da geração seguinte”. [5] Que é exatamente do que se trata a criatividade digital. Desde o início dinâmico do mundo conectado, tudo — cibercultura, ciberguerra, ciberfinanças, cibercomunicações, cibersujeitos — foi brilhantemente desestabilizado, minado e torcido em novas direções pela inovação técnica movendo-se à velocidade dos dados.bot. Estamos entrando na primeira fase ruidosa da quarta etapa da comunicação digital, tendo passado pelas fases sucessivas da comunicação presa — as portas de dados imóveis abrindo-se para a Internet — aos gráficos recombinantes da World Wide Web e à pura mobilidade — celulares, câmeras, vídeos, tablets. Cada etapa da internet tem sua história de mutações neurais, com práticas digitais bem sucedidas acompanhadas por uma história igualmente longa de mídias descartadas. Não se trata tanto de que tudo funciona como os geneticistas alegam para a “sobrevivência e reprodução dos organismos que os transportam”, mas que as inovações digitais são aleatoriamente, mas não menos entusiasticamente, amostradas para a sobrevivência e a reprodução do genoma digital global. Ao deixarmos as hoje ultrapassadas etapas da tecnologia presa, comunicações imóveis e exibição de gráficos exteriorizada, o organismo humano está literalmente fundido com o destino télico do genoma digital global. Suas mutações neurais, fluxos recombinantes e realidade aumentada são a verdadeira linguagem dos dados genéticos. A deriva de dados aleatórios é a regra, com o corpo de dados tendo o papel genético principal de “amostrar”, no banquete de produtos digitais, esses efeitos fenotípicos do genoma digital global.

Ou outra coisa? Nesse mapa wetware [6] de mutação neural, aquele ponto em que a autobiografia individual se funde às biografias de dados coletivos que todos nos tornamos, as inexoráveis leis da mutação neural e da deriva digital aleatória já não estão em ação ao moldar, mobilizar e prefigurar o destino da subjetividade humana? Nesse caso, a questão da subjetividade é plenamente incluída nas derivações de mutações neurais maiores: recombinada, remontada, remixada como a matéria elementar do genoma digital global.

Derivadores de código como sempre presos à mobilidade.

Corpos de dados aperfeiçoados

O que é a imaginação digital quando deixa de ser apenas código de computador? Ela deixa um vestígio digital? Deve transcender a carne, tornando-se código frio? Não mais um mundo de luz e escuridão, paredes brancas e espaços fechados, a imaginação digital é a linguagem aperfeiçoada do futuro digital. É como a infosfera fala conosco, infiltra nossos sonhos, organiza nossas opções, comemora a utopia de multidão que somos, mas às vezes também nos entrega à distopia de uma realidade terminal. A cultura digital está radicalmente dividida entre ser um manifesto dos sonhos artísticos de indivíduos que afinal desejam apenas falar sobre o local, o emergente, o possível; e a programação de uma máquina de realidade cada vez mais militarizada e irresistivelmente globalizada. Suspensos sob o refletor do novo — afogando-nos em uma realidade saturada de mídia –, não temos escolha senão assumir todos os lados simultaneamente. A linguagem da imaginação desempenha na retórica da realidade digital algo muito mais antigo na estética humana — a mente dinamicamente dividida que somos hoje: meio fera/meio humano; meio utopia coletiva; meio programa de realidade dura.

Nós, os mais pós-humanos de todos os humanos, pensamos ter de alguma forma escapado aos enigmas da história e aos mistérios da mitologia através da linguagem limpadora da tecnologia. Essa sensação de que de certa forma saltamos além do humano para o futuro pós-humano, de tempo vivido para tempo virtual, por meio da comunicação digital poderá vir a ser apenas a mais recente das fábulas escapistas destinadas a imunizar uma humanidade partida da maldição de antigos feitiços. Afinal, nada escapa realmente à linguagem da mitologia. Este é o mais tecnológico dos tempos e também o mais mitológico. Quando o tecido do espaçotempo se dobra sobre si mesmo, quando o tempo movendo-se à velocidade da luz traça uma grande curva fatal ligando passado e futuro, a imaginação digital — o despertar do cérebro derivador de códigos — é o meio privilegiado para conectar utopia e mitologia.

Para o bem ou para o mal, somos os primeiros peregrinos da era quântica. Na tecnocultura, vivemos na velocidade da luz, canalizados pela BitStorm do céu de dados, nossas mentes quase cirurgicamente separadas dos sonhos desacreditados das unidades estilhaçadas de “sociedade” e “cultura” para nos comunicarmos novamente com outros cidadãos da via digital com múltiplas identidades nós remixamos, mutamos, disseminamos e libertamos da prisão. Existe um novo ser digital esperando para nascer em cada um de nós: um sentido expectante de uma utopia híbrida que não será realizada através de sonhos nostálgicos de modernismo sob suspeita, mas pela profunda imersão no que nos torna singularidades quânticas.

Trauma de dados

Leituras do Livro da Genética:

… epigênese é o conceito de que um organismo se desenvolve pelo novo aparecimento de estruturas e funções, em oposição à hipótese de que um organismo se desenvolve através do desdobramento e crescimento de entidades já presentes no ovo no início do desenvolvimento (preformação). [7]

Antes do Livro da Genética houve outro livro de fábulas fabulosas, o Livro do Gênese, com sua narrativa bíblica da história da criação humana pela vontade divina, a partir da escuridão de um nada sempre em acumulação. O teórico cultural Northrop Frye descobriu no Livro do Gênese o “grande código” que governava a luta entre a paixão destemperada e a razão resoluta na sociedade tecnológica. Certamente nenhum óvulo gerador faz seu aparecimento fatal no Livro do Gênese, e nenhum organismo se desenvolve por desdobramento e crescimento de entidades já presentes no estágio de preformação biológica. Pelo contrário, o Livro do Gênese é a resolução espetacular da espectrologia da metafísica: uma história de criação a partir do nada, o conceito de que um organismo se desenvolve pelo novo aparecimento de estruturas e funções. Removendo-se a fagulha originária da vontade divina da fábula científica contemporânea da epigênese, subitamente nos encontramos na mais recente iteração da criação a partir do nada, o “grande código” da cultura digital. Sem explicação, agora deixamos a história secular do iluminismo moderno, agora habitando a casa da cosmologia digital onde o “novo aparecimento de estruturas e funções” é o impulso animador do software, concebido como o complexo sistema nervoso da realidade digital.

Cosmologia digital? Sua ontologia é a epigênese: a crença em que os organismos digitais proliferam pelo novo aparecimento de estruturas de código e funções de rede. Sempre desleal à lógica evolucionária, o código de software só reconhece a vida digital como uma luta aleatória entre o projeto digital — instruções padronizadas repetitivas — e o lado selvagem das rupturas, conjurações e intermediações.

Não há diferença real entre os dois lados. Eles são apenas opostos aparentes. Esta é a história da identidade e da diferença. Padrões e aleatoriedade, uma estrita tutela de instruções programadas e a vontade rebelde de perturbar os códigos, desobedecer instruções, levar os programas para seu lado selvagem, vigilância aos extremos do detalhe microgranular e o persistente desejo humano de wetware as máquinas.

Chegando à maturidade sob o signo do terrorismo da inteligibilidade, a verdadeira sedução do código está em seu desejo final de ser inteligível, irrastreável, inconhecível, incapaz de ser arquivado. É por isso que a história da complexidade digital hoje é lindamente captada pela linguagem das nuvens, vetores de códigos em tempestade movendo-se em alta velocidade pelo céu eletrônico, furacões de dados, tornados de BitStorm, todas essas nuvens à deriva de subjetividade em rede circulando pelas tecnologias de rede social com suas inesperadas novas estruturas e funções de FaceBook, YouTube, MySpace, Twitter e iChat. Como a autoria coletiva ao longo de séculos do Livro do Gênese, o Livro da Epigênese Digital também tem seus cosmólogos hoje e no futuro. Pois quem pode realmente prever o que acontecerá no tempo da epigênese digital? Quem pode prever com alguma certeza que novas estruturas e funções surgirão dessa nova história da criação a partir do nada digital? Em desespero, os astrofísicos descrevem a situação como uma “catástrofe pontuada”. Mas nós sabemos: a epigênese digital é a mais nova solução temporária para uma antiga charada bíblica — a criação a partir do nada — e para um quebra-cabeça filosófico igualmente antigo: a questão da identidade e da diferença.

E não apenas isso, mas a cosmologia digital também traz em seu rastro uma nova teoria da epistemologia: a epigenética — o estudo dos mecanismos neurais através dos quais os genes digitais produzem seus efeitos fenotípicos. Os mais antigos utópicos tecnológicos, Marshall McLuhan, Wyndam Lewis e Teilhard de Chardin, forneceram eloquentes advertências premonitórias de que a exteriorização do sensório humano sob a pressão da mídia de comunicação tecnológica permitiria o surgimento de um sistema nervoso digital. Desde meados do século XIX, essa profecia assombrosa sobre o sistema nervoso digital permaneceu uma invenção literária, uma metáfora pedindo para ser acionada. Não é mais o caso, definitivamente. Por meio de uma curiosa volta do destino, os grandes discursos da digitalidade e da genômica compartilharam o período histórico, porque os dados são realmente a estrutura genética do corpo digital — o genoma digital global.

Como as próprias etapas da vida, os dados se movem da plenitude para a senescência e também têm suas auroras e crepúsculos. O genoma digital global é um sistema nervoso vastamente aperfeiçoado, já que seus mecanismos neurológicos nunca podem ser confundidos com a mente inscrita como locus da consciência, mas desde seu momento de incepção são distributivos, circulantes, relacionais, complexos. Aparentemente sempre um passo fora do tempo com os regimes de inteligibilidade, os melhores dados têm suas sinapses partidas, consciência sobrecarregada, memória vacilante, deslizes de software. Quando a digitalidade e a genômica se fundem na forma do genoma digital global, o distúrbio de estresse pós-traumático (de dados) com todos os seus traumas é finalmente percebido como o princípio animador da realidade aumentada. Pós-traumático porque o abrupto fechamento do sensório humano, acompanhado pela imersão do organismo humano na pele de dados, esse profundo evento originário que anuncia o término da espécie humana como a conhecemos, com seu ego privatizado, consciência localizada e separação radical dos sentidos; e a incepção de algo profundamente novo, simultaneamente poderoso e entusiasmante, qual seja, o sujeito como uma ecologia emergente de biologia/sociabilidade/dados — esse evento incrível que anuncia o eclipse de uma forma-espécie (humana) e a imediata emergência de sua sucessora em rede já ocorreu.

McLuhan certa vez afirmou que a explosão já aconteceu: estamos flutuando nos detritos do rompimento do corpo autônomo, do ego discreto e do sistema nervoso inscrito. Quem estava preparado para isso? Quem estava pronto para a mutação imediata da espécie humana em meio-carne/meio-código? Nessa mudança típica de uma época, os próprios dados sofrem distúrbio de estresse como seu trauma básico. Não é tanto que o novo organismo meio-carne/meio-código não possa tolerar a velocidade da aceleração tecnológica. Libertos do mundo da materialidade por regimes em rede de processamento relacional e computação onipresente, os mecanismos neurais da mente humana demonstram plasticidade inesperada e abertura à heterogeneidade. A evidência está por toda parte: cérebros que sofrem ferimentos físicos e instantaneamente reorganizam o campo de percepção, visão artística acelerando a velocidade dos dados, literatura de ficção-científica superestimulando o sistema nervoso da informação, futurismo cinematográfico que facilmente supera a velocidade da mudança tecnológica, uma nova estética da percepção que avidamente abraça o simulacro delirante dos jogos. Em toda parte os mecanismos neurais da carne de dados escorregam por correntes líquidas de fluxos de informação como pedras chatas atiradas em uma preguiçosa tarde de verão de dados. Todo bit de evidência na mídia, da televisão e do rádio passando por computação, celulares, Blackberries, Twitters e o aparato virtual da realidade aumentada, sugere que o cérebro humano absorveu, com facilidade e entusiasmo, sua ablação para o sistema nervoso da mídia de comunicação tecnológica plenamente exteriorizada.

O verdadeiro desafio é o trauma de dados, o fato de que os dados não podem acompanhar, seja metaforicamente ou materialmente, a velocidade da percepção. É por isso que os dados muitas vezes se parecem com o ressentimento conservador de States of Injury, de Wendy Brown, magoado, abandonado, em busca de vingança. [8] Os dados buscam a segurança da pureza digital; fechando-se atrás de um firewall de espaços higiênicos de depósitos de dados fechados. Em outros casos, os dados tornam-se agressivos — voltam-se para sua espécie companheira humana, obtendo um frio conforto na memória duracional e nas triangulações de identidade tão necessárias para os sistemas de vigilância. Como o pior da espécie humana antes deles, os dados são capazes da “negligência injuriosa” da ética de Heidegger. [9] Às vezes também só encontra expressão em termos de uma “malícia de disputa”. [10] Renascidos no batistério da genômica, os dados são completos niilistas, infectados pelo ressentimento da espécie humana que tanto ansiavam por substituir, a ponta de lança de uma vontade puramente técnica — derivante, oscilante, eliminando o horizonte, em sua principal expressão uma animação de software exatamente porque os dados são assombrados pelo vestígio da morte. Mas é claro que a morte dos dados é exatamente a razão pela qual a cultura da informação pode ser tão dinâmica. É a fragrância tangível da necrópole na tempestade de dados que torna a cultura da informação tão profunda e sedutoramente carismática. Entediados pela lógica da presença, os mecanismos neurais removidos do sujeito em rede filtram-se em profundo fascínio entre os detritos dos vestígios humanos da espécie — refugos da memória, filamentos de códigos esquecidos, mídia morta, pensamentos interrompidos, livro após livro de rostos fatalmente superados. É essa sugestão de morte que conduz a necrópole do software. Banqueteando-se nos despojos, o acúmulo maciço que é a informação morta finalmente está livre para se expressar como pura vontade tecnológica, e nada mais. Literalmente, os dados hoje são uma conquista nervosa. Recusando a estabilidade, nunca estacionários, os dados estão condenados a um ciclo de circulação interminável. Não têm outro destino senão o da pura vontade: aumentada, fluida, mobilizada, no Facebook, Twitter, iPod, Flicker, em upgrade, download, widescreen, multitask e GPS. Como todas as espécies precedentes, finalmente chegará um tempo em que os dados se cansarão de si mesmos e, como um niilista exausto, só encontrarão prazer em tornar-se doentes. Nossa suspeita é de que nesta época de fluxos acelerados o aparecimento dos dados como um niilista exausto já esteja aqui. Nesta era de dados exaustos, tudo conta, tudo são apps exatamente porque nada conta, a não ser o nada substituto dos próprios dados.

Trauma digital.

Desde 2000 o FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica – constitui uma plataforma interdisciplinar internacional para incentivar o desenvolvimento de projetos inovadores e criativos na área das artes e das tecnologias. O FILE é uma organização cultural sem fins lucrativos que viabiliza uma reflexão sobre as principais questões do contexto eletrônico-digital contemporâneo mundial, sempre tendo em vista uma visão globalizada e transdisciplinar na complexidade política do universo cultural de nosso tempo.O ensaio “Code Drift“, de Arthur e Marilouise Koker, foi publicado originalmente em CTheory, como parte de uma edição especial intitulada “Code Drift: Essays in Critical Digital Studies”. É reimpressa e traduzida com a permissão dos autores.

[1] Robert C. King & William D. Stansfield, A Dictionary of Genetics (Nova York: Oxford University Press, 1997), p. 139.

[2] Marshall Brain. “Hypersonic Sound.” Disponível em marshallbrain.blogspot.com, 15/05/2008, acessado em 25/06/2009; ver também www.woodynorris.com/articles/technology/Reviews.htm Acessado em 17/05/2009.

[3] Hauntological – de hauntology, ideia filosófica introduzida por Jacques Derrida em sua obra de 1993 Spectres de Marx [Espectros de Marx]. A palavra, uma fusão de “haunt” [assombrar] e “ology”, e quase homófona de “ontologia” também no francês nativo de Derrida, trata do “estado paradoxal do espectro, que não é ser nem não ser”, segundo verbete em “Wikipedia”. A ideia sugere que o presente só existe em relação ao passado, e que a sociedade após o fim da história começará a se orientar para ideias e estéticas que são consideradas rústicas, bizarras ou “antiquadas”; isto é, voltadas para o “espectro” do passado. (N. do T.)

[4] A Dictionary of Genetics, p. 228.

[5] Ibid; p. 228.

[6] Wetware – O cérebro humano como elemento de computação, paralelo a software e hardware. Comum no ciberespaço e no gênero literário de ficção-científica. O código generativo subjacente a um organismo, como encontrado no material genético, na bioquímica das células ou na arquitetura dos tecidos corporais. (N. do T.)

[7] A Dictionary of Genetics, p.116.

[8] Wendy Brown, States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity, Princeton: Princeton University Press, 1995.

[9] Para uma reflexão fundamental sobre a “sintonização” cultural dominante que promove o valor da ética do abuso, ver Martin Heidegger, Os Conceitos Fundamentais da Metafísica: Mundo, Finitude, Solidão, ed. Forense Universitária, 2006; e Martin Heidegger, ‘The World of Nietzche’, in The Question Concerning Technology and Other Essays, tradução e introdução de William Lovitt, Nova York: Harper and Row, 1977, p. 100.

[10] Ibid.